Geraldo Paulino Santanna

 

Geraldo Paulino Santanna

Por Roberto Carlos Morais Santiago

O salinense Geraldo Paulino Santanna foi um dos mais expoentes políticos da história de Minas Gerais. A sua trajetória política se iniciou em Salinas ao derrotar nas urnas, para prefeito, candidato apoiado pela último e mais importante coronel da história do município, Cel. Idalino Ribeiro, na década de 1950.

Durante mais de meio século o político salinense Geraldo Paulino Santanna testemunhou os bastidores da política de Salinas e Minas Gerais. Foi vereador, prefeito, deputado estadual e secretário de estado. Serviu vários governadores de Minas Gerais, muitos deles adversários entre si. Cumpriu missões sigilosas, fez arranjos e alianças políticas. Foi um autêntico político de bastidor e teve participação em importantes momentos da política mineira.

Filho de Olyntho Prediliano Santanna e Dinorah Paulino Santana, Geraldo Paulino Santanna nasceu em Salinas no dia 28 de novembro de 1925. Nasceu numa época em que o Brasil e Minas Gerais respiravam a República Velha. O governador de Minas Gerais era Fernando de Melo Viana (1924-26). No interior de Minas se praticava a velha política coronelista. Em Salinas e região o chefe político era o Coronel Idalino Ribeiro (1879-1973), por mais de 40 anos.

Ainda jovem Geraldo Santanna cursou o primário em Salinas, na Escola Estadual “Dr. João Porfírio”, entre 1934-37. Estudou o ginásio no “Dom Silvério”, em Sete Lagoas, entre 1938-42. O científico foi concluído no tradicional “Afonso Arinos”, em Belo Horizonte, nos anos de 1943-44.

Retornou para Salinas como contínuo e funcionário do Banco de Crédito Real de Minas Gerais. Logo foi transferido para Curvelo, onde deixou o emprego e retornou à terra natal.

Novamente em Salinas, com a ajuda do avô Basílio Ferreira Paulino, passou a exercer atividade rural no ramo de compra de animais na região para revender em Itabuna, Bahia. O avô Basílio foi importante na sua vida, uma vez que foi co-responsável pela sua criação, educação, trabalho e lhe deu suporte em suas ações. Era fazendeiro e militar. Em 1911 foi agraciado com o título de Capitão Cirurgião da Guarda Nacional, concedido pelo presidente da República, Hermes da Fonseca.

Em 1946, aos 21 anos, casou-se com Maria (…) com quem teve seis filhos. Após o nascimento do primeiro filho, o avô Basílio resolveu passar para o neto a fazenda Bela Vista, distante seis quilômetros de Salinas, que dividia, pelo rio Salinas, com a fazenda Barreiro, de propriedade do deputado Chaves Ribeiro, filho do Coronel Idalino Ribeiro, chefe político de Salinas e região.

Certo dia, com a intenção de ir até a sede da fazenda Barreiro, deparou-se com a porteira da fazenda destruída e havia ali uma cerca de arame farpado impedindo passagem de transeuntes. Entendeu que o acesso àquela fazenda estava fechado.

Naquele período, todos viviam em torno do conceito de orientação do Coronel Idalino Ribeiro, cuja palavra era derradeira para todos. O jovem Geraldo Santanna dirigiu-se ao coronel e relatou o fato da porteira quebrada na entrada da fazenda do filho Chaves Ribeiro no que impedia o trânsito de pessoas pela estrada velha. O coronel prometeu resolver o problema.

Entretanto, o jovem Geraldo Santanna ficou desconfiado e achou que a interdição da estrada por meio do bloqueio da porteira da fazenda Barreiro tinha sido obra do próprio coronel. Não satisfeito e desconfiado, pouco tempo depois resolveu vender a fazenda Bela Vista ao primo Moacir Ribeiro, também sobrinho do coronel Idalino Ribeiro.

O episódio da porteira da fazenda Barreiro foi determinante na vida do jovem Geraldo Santanna. Passou a observar os bastidores da política local e os seus principais atores como Coronel Bernardino Costa, Coronel Procópio Cardoso, Coronel Moisés Ladeia e o próprio Coronel Idalino Ribeiro. Certa vez foi chamado pelo Coronel para uma repreensão, pois este ficara sabendo de sua simpatia pela atividade política do Coronel Procópio Cardoso. Não obstante as ameaças e próximo o pleito eleitoral, resolveu se candidatar a vereador pela oposição.

Eleito vereador e empossado (1951-55) iniciou atividade parlamentar fazendo forte oposição à política situacionista chefiada pelo Coronel Idalino Ribeiro, cujo prefeito de Salinas era Miguel de Almeida (1951-55). O seu primeiro grande ato político foi o pedido de transcrição nos anais da Câmara Municipal de Salinas de carta do Coronel Idalino Ribeiro ao governador Benedito Valadares pedindo para não consentir a emancipação do distrito de Taiobeiras. Eis o teor da carta:

Sr. Governador,

Saúde,

Regressando ao norte até 22 corrente, peço ao prezado amigo, não consentir que o distrito de Taiobeiras, sem renda, sem gente, sem território bom, e sem nenhum melhoramento, seja elevado a município. Principalmente, querendo tomar a melhor faixa de terreno que existe no município de nossa Salinas, a melhor que temos.

Abraços agradecimento do velho amigo admirador,

Idalino

Capital, 16/11/1943.”

(Fonte: SANTANNA, Geraldo Paulino. O Caminho de Volta – A Travessia do Deserto. Belo Horizonte: 2004, página 69).

A emancipação de Taiobeiras ocorreu em 1953, com o apoio da Câmara Municipal de Salinas e da liderança do jovem vereador Geraldo Santanna. O episódio demonstrou novo contorno na política coronelista de Salinas que teria muitos desdobramentos a partir de então.

Alguns anos depois, foi eleito prefeito de Salinas (1959-63), sucedendo o prefeito Cândido José da Costa (1955-59). Surgia no município nova liderança política que resultou na decadência política do então todo poderoso político local, o temido Coronel Idalino Ribeiro, que até então reinava absoluto com mãos de ferro a política de Salinas e região por mais de quarenta anos a partir de 1918 até meados da década de 1950. O jovem político Geraldo Santanna encerrava o ciclo dos políticos coronéis.

A sua trajetória política foi intensa. Em Salinas foi vereador (1951-55) e prefeito por duas vezes (1959-63 e 2000-03). No plano estadual foi deputado por três vezes (1967-71, 1991-95 e 1995-99), chefe de gabinete da Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas (1956); diretor-superintendente da Cemig (1964); assessor do governador pela Secretaria de Estado de Assuntos Municipais (1963-64 e 1983-85), secretário de estado da Secretária Extraordinário de Estado para Assuntos Políticos (1986-87), secretário de estado da Secretaria de Estado de Minas e Energia (1987), presidente da Cemig (1987-88), secretário de estado da Secretaria de Estado de Assuntos Municipais (1989-90).

Teve participação no alto escalão dos governos de Bias Fortes (1956-60), Magalhães Pinto (1961-66), Israel Pinheiro (1966-71), Rondon Pacheco (1971-75), Aureliano Chaves (1975-78), Francelino Pereira (1979-83), Tancredo Neves (1983-84), Hélio Garcia (1984-87), Newton Cardoso (1987-91), Hélio Garcia (1992-96), Eduardo Azeredo (1996-99) e Itamar Franco (1999-00).

Como homem público foi condecorado com a Ordem do Mérito Legislativo, Medalha Santos Dumont, Medalha da Inconfidência, Medalha de Mérito da Defesa Civil de Minas Gerais, Medalha Alferes Tiradentes e Diploma de Colaborador Emérito do Exército nacional.

O seu último ato político foi ser prefeito de Salinas pela segunda vez (2000-05) em coligação política nunca admitida em Salinas com o rival Péricles Ferreira dos Anjos. Não completou o mandato. Renunciou ao cargo no dia 13 de janeiro de 2003 e passa o cargo ao vice-prefeito Péricles Ferreira dos Anjos. Encerra-se ciclo político de um dos homens mais influentes de Minas Gerais da segunda metade do século XX. O último ato político foi mensagem ao presidente da Câmara Municipal de Salinas:

Salinas, 13 de janeiro de 2003.

Excelentíssimo senhor vereador presidente da Câmara Municipal de Salinas,

1. Da Renúncia

Venho renunciar, como de fato renunciado tenho, ao mandato de prefeito municipal de Salinas, cujo término seria em janeiro de 2005.

Ato unilateral, resultante de vontade própria, independe de apreciação dessa E. Casa, cujo término seria em janeiro de 2005.

2. Da declaração de Bens – Acompanha a presente Declaração de Bens, na forma do que escreve a lei. Permito-me ressaltar que, se comparada à afeita por ocasião de minha posse, há de se concluir que, embora em pequena escala, meu patrimônio decresceu.

3. Das grandes obras – Ao assumir em fevereiro de 1959 a prefeitura de Salinas, o fiz com a missão, reiteradamente reclamada por Bernardino Costa, de lutar pela implantação e consolidação da “liberdade” em nossa região, a que logramos ter relativo êxito ao final daquele nosso mandato. A aquisição agora do Edifício Cel. Idalino Ribeiro para sede da prefeitura, a par de seu grande valor material, foi inspirada sobretudo no seu valor histórico, pois dali emanava o poder absoluto e incontestável de uma época.

Ao assumir em 2000 a candidatura a prefeito de Salinas, o fiz para atender ao clamor da população, bem interpretado na convocação do ilustre deputado Péricles Ferreira dos Anjos, juntos, estabelecer um “basta” ao vendaval de corrupção que abateu a moral e a ética na sucessão de responsáveis pela administração municipal, cujos desvios de conduta e de conceitos se transformaram repentinamente numa ‘cultura’. Não descuramos da difícil tarefa e a própria sociedade, na sua grande maioria, já dá sinais de que nos entendeu e aplaude seus primeiros resultados. Por isso e também por ser titular da iniciativa o deputado Péricles Ferreira, todos confiamos em que, certamente, ele completará a missão de restabelecer a moralidade e o respeito à coisa pública em nossa região (…).

3.2 No campo das realizações materiais, ao longo desses anos que se passaram, a par das obras de esgoto sanitário que só agora se desencadeiam na cidade, dotamos nossa terra de água doce e energia elétrica em abundância, de comunicação telefônica e rodoviária com o País, e, com a construção das primeiras passarelas sobre o rio Salinas, e o projeto de avenidas sanitárias ao longo de nossos rios; e, sem descuidarmos da recuperação e preservação de nossos mananciais, e com a perspectiva de construção de grande e moderno mercado na Praça ‘São Miguel’, do bairro São Geraldo, completamos a ‘sinalizar’ da direção para a qual a cidade deva também se desenvolver, não estando fora de propósito, com isso, a inserção da área que contorna a grande barragem sobre o rio Salinas, no seu contexto.

4 . Afinal, aos Senhores vereadores que entenderam e colaboraram aos que também não o fizeram por terem pleitos pessoais por nós contrariados, às novas lideranças e à sociedade em geral, nossa esperança é a de que como parte de um pensamento novo, ou melhor, ‘contemporâneo do futuro’, caminharão na busca do Poder, sem que dele pretendam se servir, mas para servir ao bem comum, e assim, inibindo, pela ação rejuvenescida e corajosa, aos que dele só pretendem gozar e usufruir.

Atenciosamente,

GERALDO PAULINO SANTANNA”

Encerrado o ciclo político, escreveu livro de memórias sobre a sua vida e os bastidores da política. O livro é um raro documentário sobre a intimidade do poder político em Salinas e Minas Gerais em suas várias facetas.

Geraldo Paulino Santanna foi um político de raras habilidades. O seu livro revela a intensidade e magnitude de sua vida pública em detalhes e sem pudor. Foi um dos mais emblemáticos personagens da política contemporânea mineira dos últimos tempos. José Monteiro de Castro, por quem Geraldo Paulino Santana tinha especial apreço sintetiza o político salinense ao fazer o seguinte comentário:

Acompanho a vida pública e particular, o comportamento e o trabalho do Santanna há muitos anos; senão o melhor, está entre os mais completos auxiliares que um Governador de Minas já conheceu; posso testemunhar que ele não se permite intimidades com nenhum governante a que serve, por mais tentado que seja; soube tratá-los, a cada um deles, de forma quase institucional, com extrema lealdade, respeito, dedicação e competência, com independência equilibrada, o que lhe permite ser sempre franco, mesmo quando precisa advertir o governante sobre as conseqüências desfavoráveis de algum ato; por tudo isso é ouvido com atenção e igual respeito. O comportamento de Santanna como auxiliar de governadores diversos, até opositores entre si, é a comprovação do que enfatizou a Rainha Vitória (Inglaterra), quando encerrou suas homenagens ao falecido Disraeli: ‘Les róis aiment celui qui parle juste’ (Os reis amam aqueles que lhes dizem a verdade na hora justa, na hora certa)”.

O livro de memórias “O Caminho de Volta – A Travessia do Deserto” (Belo Horizonte: 2005, 444 páginas, 2ª edição), de autoria de Geraldo Paulino Santanna é um raro e interessantíssimo documentário para quem deseja entender os bastidores da política do município de Salinas e Minas Gerais a partir da década de 1950.

DEPOIMENTOS:

Geraldo Santanna é uma singular figura de cidadão e homem público. Tem dado a Minas Gerais, com dedicação, sobriedade, coragem, correção e argúcia, nos postos mais distintos, contribuição inestimável, que não se resume à sua Salinas inolvidável, mas alcança todo o Estado” (OSCAR DIAS CORRÊA, Ministro aposentado do STF, professor de Economia Política pela UFMG e UFRJ, membro da Academia Brasileira de Letras).

Foi na vida pública que conheci Geraldo Santanna, tenaz combatente que prestou eficientes serviços ao governo do saudoso companheiro José de Magalhães Pinto. Nesta fase pude testemunhar a sua capacidade de aglutinação política, com inteligente e arguta coordenação para conciliar tendências partidárias concorrentes, tendo em vista o objetivo maior de conquistar espaço, consolidar apoios e prestigiar Minas Gerais” (RONDON PACHECO, Governador de Minas Gerais, 1971-1975).

Li, de uma só sentada, o livro ‘O Caminho de Volta’. Conheço poucas obras que relatam com tão ricos detalhes a história política de Minas Gerais (…). Poucos políticos vivos podem relatar com riqueza de detalhes (…) a história dos últimos 50 anos do nosso Estado” (LUIZ TADEU LEITE, Prefeito de Montes Claros).

Momentos decisivos da história do Brasil foram protagonizados por homens que, a partir de Minas, e com peculiar competência, fizeram inicialmente a política de âmbito municipal. É no município que está guardado o interesse fundamental das pessoas a quem um governo deve servir; a partir daí, aprende-se lidar com os problemas sociais na órbita estadual e federal. Os bons políticos levam para os cargos públicos, conhecimento do que deve ser feito na busca do progresso, mas também sentimentos e aspirações, às vezes dolorosas, do povo. Sua atitude na vida pública não busca interesse pessoal, repleta que deve estar desse patriotismo que somente as lembranças da terra da infância sabem construir. Geraldo Paulino Santanna fez esse caminho para a vida pública. Saindo de Salinas para o centro do poder no Estado, manteve a obrigação de comportar-se como sertanejo autêntico, de trato ladino e bem humorado” (OSWALDO ANTUNES, Jornalista).

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SANTANNA, Geraldo Paulino. O Caminho de Volta – A Travessia do Deserto. Belo Horizonte: 2004, 2ª. Edição, 444 páginas.

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Nota: O artigo acima foi publicado no IV Volume da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros (www.ihgmc.art.br).

Cachaça Havana, patrimônio cultural imaterial de Salinas

Havana, marca de cachaça pioneira em Salinas

Por Roberto Carlos Morais Santiago

O prefeito de Salinas, José Antônio Prates, assinou Decreto nº. 3.728, de 10 de julho de 2006, que reconhece a cachaça Havana, produzida no município desde 1943 pelo produtor Anísio Santiago (1912-2002), agora pelos sucessores, como Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas.

O decreto foi assinado durante a abertura do V Festival Mundial da Cachaça de Salinas, no dia 14 de julho de 2006 (que também teve o lançamento do livro O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago).

É a primeira vez que uma marca de cachaça é tombada como patrimônio cultural no Brasil. Segundo o prefeito de Salinas, o título de Capital Mundial da Cachaça deve-se, em grande parte, ao pioneirismo do produtor Anísio Santiago e da sua lendária cachaça Havana. O produtor e a famosa marca vem tendo, desde a década de 1940, importância histórica no processo de divulgação da cachaça de alambique produzida na região de Salinas.

O tombamento da marca Havana é o reconhecimento do pioneirismo e trabalho do produtor Anísio Santiago e familiares que vem mantendo inalterado o processo original de produção da mais famosa e tradicional marca de cachaça de alambique do Brasil. A seguir, o texto do decreto:

DECRETO Nº. 3.728, DE 10 DE JULHO DE 2006
 
INSTITUI A CACHAÇA DA MARCA “HAVANA” COMO PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO MUNICÍPIO DE SALINAS E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.
 
 O PREFEITO MUNICIPAL DE SALINAS, no uso de suas atribuições legais, e especialmente as que lhe são conferidas pelo artigo 90 da Lei Orgânica Municipal,
 
Considerando que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos, obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos naturais notáveis eos sítios arqueológicos, bem como impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural,

DECRETA:

Art. 1º – Fica reconhcido como Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas o método de fabricação da cachaça “Havana”, desenvolvido pelo Sr. Anísio Santiago em 1946 e cuja qualidade se mantém inalterada desde então.

Art. 2º – Fica, ainda, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Salinas a marca “Havana”, designativa da cachaça referida no artigo 1º.

Art. 3º – A marca e o método referidos nos artigos anteriores gozam da especial proteção legal prevista no art. 216 da Constituição Federal e art. 208 da Constituição Estadual de Minas Gerais.

Art. 4º – O reconhecimento da cachaça Havana como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Salinas se deve pela identidade, memória da sociedade, além do seu modo de criar, fazer e viver.

Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Salinas, 10 de julho de 2006.

JOSÉ ANTÔNIO PRATES
Prefeito Municipal

Coronel Idalino Ribeiro

Cel. Idalino Ribeiro (1879-1973)

Por Roberto Carlos Morais Santiago

IDALINO RIBEIRO, filho de João Nepomuceno e Benevinda Costa Ribeiro, nasceu em Salinas, norte de Minas Gerais, no dia 3 de maio de 1879, no final do século XIX. A sua família é uma das pioneiras de Salinas com raízes em Rio Pardo de Minas. Em 11 de julho de 1904 se casou com Laudelina Chaves, filha única do rico fazendeiro e político José Chaves. Da união teve quatro filhos: Odete Chaves Ribeiro, José Chaves Ribeiro, Osmane Ribeiro e Severina Chaves Ribeiro.

Ainda jovem, foi nomeado fiscal de impostos de consumo do Estado com salário de 120$000 réis e mais 5% da renda, tendo por campo de fiscalização os municípios de Salinas, Grão Mogol, Araçuaí, Pedra Azul, Jequitinhonha, até o Salto da Divisa. Ganhou, ainda, patente para negociar fumo. Em sua vida firmou-se como pessoa influente, comerciante e político.

Foi chefe político em Salinas por mais de quarenta anos. De 1918 a 1930 foi Agente Executico (cargo equivalente a prefeito) que era ocupado pelo presidente da Câmara de Vereadores. De 1930 a 1959, impôs todos os prefeitos (nomeados ou eleitos) do município, quando seu candidato foi derrotado pelo sobrinho e emergente político emergente Geraldo Paulino Santanna. A partir daí entrou em dacadência política.

Em 1923, foi responsável pela construção e inauguração de ponte de madeira ligando o centro ao bairro São Geraldo. O construtor responsável foi o carpinteiro Viroti, de Jequitaí, que ganhava 15$000 por dia, muito dinheiro para a época.

Em 1928, com a chegada dos primeiros automóveis em Salinas, promoveu a construção da estrada de rodagem de Salinas a Brejo das Almas (atual Francisco Sá) ficando pronta em 1929. O governador Olegário Maciel Dias, de 1931 a 1933, refez a estrada, pagando o conto de réis por quilômetro com intuito de dar serviço para grande número de desempregados que estavam criando problemas para o Estado. O Coronel Idalino Ribeiro financiava a construção sendo reembolsado pelo Governo de Minas posteriormente.

Em 1933, como forma de de demonstração de poder e prestígio político, construiu palacete residencial especialmente para receber o governador Benedito Valadares, que veio participar da inaugração da reforma da estrada que liga Salinas a Brejo das Almas.

No período em que esteve no poder, todos em Salinas, diretamente ou indiretamente, eram influenciados pelo coronel Idalino Ribeiro. A sua palavra era derradeira e decisiva. Por respeito ou medo todos o reverenciavam. Existiam outros coronéis em Salinas em sua época como Bernadino Costa, Procópio Cardoso, Moysés Ladeia. Entretanto, coronel Idalino Ribeiro estava acima de todos.

Faleceu em Belo Horizonte no dia 28 de outubro de 1973, aos noventa e quatro anos. Foi grande chefe político de direito e de fato no município de Salinas. Seguramente, Coronel Idalino Ribeiro figura no rol dos homens mais importantes da história do município.

Breve histórico de Salinas

Por Roberto Carlos Morais Santiago

Atualmente, dos oitenta e seis municípios que integram a mesorregião Norte de Minas Gerais, somente sete conseguiram a emancipação política e administrativa no século XIX: Rio Pardo de Minas (1833), Montes Claros (1857), Grão Mogol (1858), Januária (1860), São Francisco (1877), Salinas (1883) e Monte Azul (1887).

A história primitiva de Santo Antônio de Salinas teve início no final século XVII, quando por volta de 1698, o bandeirante Antônio Luiz dos Passos, oriundo da Bahia, chegou a região de Rio Pardo de Minas para estabelecer fazendas de gado. Ao percorrer a região mais ao sul, habitada pelos índios Tapuias, descobriu rio pouco caudaloso (atual rio Salinas) e ali encontrou ricas jazidas de salgema – sal da terra – produto muito caro na época devido à escassez, que favoreceu o povoamento. Logo se formou o arraial de Santo Antônio de Salinas.

Naquele período, todo o Norte de Minas e Nordeste (Jequitinhonha e Mucuri) de Minas Gerais faziam parte do território da Capitania da Bahia, integrando a Comarca de Jacobina. Porém, na década de 1750, com a descoberta de diamantes na região do Arraial do Tejuco (atual Diamantina), as duas mesorregiões foram incorporadas à Capitania de Minas Gerais, integrando a Comarca de Serro Frio, conforme Resolução do Conselho Ultramarino de 13 de maio de 1757, com o intuito de controlar e fiscalizar a extração de ouro na região.

O arraial de Santo Antônio de Salinas era parte integrante do território do município de Minas Novas que pertencia à Comarca de Serro Frio. Em 1833, com a criação do município de Rio Pardo de Minas, o arraial foi incorporado ao território do novo município na condição de distrito.

Em 1855, o distrito de Salinas ganha o status de freguesia. No dia 18 de dezembro de 1880 é sancionada a Lei Provincial nº. 2.725 pelo vice-presidente da Província de Minas Gerais, Cônego Joaquim José de Sant’anna, criando o município de Santo Antôno de Salinas. A mesma lei eleva o arraial a categoria de vila.

Em 19 de janeiro de 1883, efetiva-se emancipação político-administrativa do município com a instalação da 1ª. Câmara Municipal que ocorreu em Rio Pardo de Minas. Eis o teor da ata de instalação da 1ª. Câmara Municipal: 

ATA DE INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE
SANTO ANTÔNIO DE SALINAS
 
“Termo de juramento e posse aos sete vereadores da Câmara Municipal da Vila de Santo Antônio de Salinas. Aos dezenove dias do mês de janeiro de 1883, às quatro horas da tarde, sob a presidência do Vereador da Câmara de Rio Pardo de Minas, Conrado Gomes Caldeira, compareceram os senhores Cap. Carlos Dias Torres, Tte. Donério Ferreira de Araújo, Luiz Ferreira Monteiro, Antônio dos Anjos Silva Sobrinho, Avelino Ferreira de Almeida, Honofre Valente Franco e Mudesto José da Silva, vereadores eleitos para o futuro quadriênio de 1883 a 1886, como fez certo pelo seus respectivos diplomas, e prestarão sobre o Livro dos Santos Evangelhos, o juramento com as formalidades legais, prometendo cumprir com bôa e sã consciência os deveres do cargo de vereadores, do qual tomarão posse. E de como assim dicerão, para constar lavrei este ermo. Eu, José Cândido Moreira e Souza, secretário interino desta Câmara que este fiz e subscrevi.”

Em 1887, no dia 4 de outubro, a vila de Santo Antônio de Salinas é elevada a categoria de cidade por meio da Lei Provincial nº. 3.485. Aqui se comete um erro histórico. Muitos acham que a data de aniversário do município é 04/10/1887. Na verdade, a data correta é 18/12/1880 (data em que foi sancionada a Lei Provincial nº. 2.725, que criou o município de Santo Antônio de Salinas (a Lei nº. 3.485, de 04/10/1887, apenas elevou o status de vila para cidade). Se for considerado o período anterior a 1880 (data de criação do município) até o ano de 1833, quando passou de arraial a distrito de Rio Pardo de Minas, a história de Salinas alcança mais de 170 anos. É um equívoco achar que a história de um município somente se inicia quando é criado por uma determinada lei, muito pelo contrário, a história se inicia muito antes. A emancipação é somente uma etapa no processo histórico de desenvolvimento social, cultural, político e econômico de uma região.
 
Com a criação em 1880, o território do novo município passa a ser composto pelos distritos de Santo Antônio de Salinas (sede) e Água Vermelha (emancipado em 1962).

Em 1892, foi instalada a Comarca de Santo Antônio de Salinas, quando o Poder Judiciário de Minas Gerais decide estender os braços da lei para a região. O Dr. Francisco de Assis Freitas foi o primeiro Juiz de Direito da Comarca e o Tenente Coronel Rebeldino Pinto Coelho o seu primeiro Promotor de Justiça.

Em 1923, por meio da Lei Estadual nº. 843, o nome do município foi alterado de Santo Antônio de Salinas para SALINAS (nome atual). A mesma lei, ainda, incorporou ao território de Salinas os distritos de Amparo do Sítio (Rubelita), Santa Cruz de Salinas e Taiobeiras, além de Águas Vermelhas que desde 1880 já era distrito do município.

De 1883 a 1930, o município foi administrado pelo presidente da Câmara que acumulava o cargo de Agente Executivo (equivalmente ao cargo de prefeito atual). Foram, pela ordem: Luciano Veloso, José Joaquim Pereira, Antônio Castro, Virgílio Avelino Grão Mogol, João Porfírio Machado, Antônio Castro e Idalino Ribeiro.

O primeiro cinema de Salinas foi inaugurado em 1922. Funcionou por pouco tempo. Em 1955, foi inaugurado o segundo cinema (Cine Teatro Salinas). Funcionou até o final da década de 1980 na rua Padre Salustiano, próximo à Igreja Presbiteriana.

Recentemente, em 1995, os povoados de Fruta de Leite e Novorizonte, além do distrito de Santa Cruz de Salinas se emanciparam de Salinas (Lei Estadual nº. 12.030, de 21/12/1995). Com isso, o atual território do município passou a ser constituído de três distritos: Salinas (sede), Ferreirópolis e Nova Matrona. Possui área remanescente de 1.891 km² e população de 37.373 pessoas (IBGE, 2007). Integra a bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha um dos principais rios de Minas Gerais.

Historicamente, Salinas sempre teve vocação para o progresso em face do dinamismo da sua economia e do seu povo, tradicionalmente empreendedor. Há mais de um século, desde os tempos do Império, o município exerce liderança política e econômica em toda a região do Alto Rio Pardo (microrregião de Salinas) que possui atualmente 17 municípios e ocupa área de 17,1 mil quilômetros quadrados e um contingente populacional de cerca de duzentas mil pessoas (IBGE, 2007).
 
De Salinas surgiram muitos personagens que enalteceram a história do município tanto no aspecto econômico como político. Pode-se citar Darcy Freire, Cel. Bernadino Costa, Cel. Idalino Ribeiro, Geraldo Paulino Santana, Péricles Ferreira dos Anjos, Anísio Santiago, dentre outros, que deram grande contribuição para o desenvolvimento da região.
 
Darcy Freire, engenheiro formado pela Escola de Minas, em Ouro Preto, foi político, fazendeiro e um dos maiores expoentes da literatura de Salinas. Exerceu influência em gerações de escritores salinenses.

O Cel. Bernardino Costa (Bernardino Ferreira Costa) foi um respeitável fazendeiro. Tinha grande paixão pela política e era chefe do Partido Republicano no município nas décadas de 1930-40. Trocava correspondências com o presidente da República, Artur Bernardes, e nutria forte oposição à política local situanista do Cel. Idalino Ribeiro.

O Cel. Idalino Ribeiro dominou com mão de ferro a política de Salinas por muitos anos, de 1918 até meados da década de 1950. Foi um dos mais expoentes políticos do Norte de Minas na segunda metade do século XX (época dos coroneis que dominavam a política local com mão de ferro).

Em 1958, aos vinte e um anos, o jovem Geraldo Paulino Santana, ao se eleger prefeito de Salinas, encerrava o ciclo de dominação política do Cel. Idalino Ribeiro. Iniciava-se, então, meteórica carreira política de um dos mais importantes e influentes políticos da história de Minas Gerais. Teve participação decisiva em diversos governos de Minas Gerais sempre ocupando destaque no meio político. É tido como um dos mais importantes políticos de Minas Gerais nos últimos 50 anos.

Também é de Salinas o produtor da lendária e emblemática cachaça Havana, Anísio Santiago (1912-2002). A famosa Havana teve participação histórica no processo de transformação de Salinas na principal região produtora da cachaça artesanal de todo o país. O produtor Anísio Santiago formou toda uma geração de produtores de cachaça de Salinas.

Atualmente, a produção anual de cachaça no município é de cerca de cinco milhões de litros de cachaça por ano sendo comercializada sob mais de 50 marcas em todo o país e no exterior. A Associação de Produtores Artesanais de Cachaça Artesanal de Salinas (Apacs), que representa os produtores do município, organiza em parceria com a Prefeitura Municipal, desde 2002, o Festival Mundial da Cachaça, evento que faz sucesso nacional e vem atraindo turistas de todo o país e do exterior ávidos por conhecer a famosa cachaça produzida no município.

Dentre as dezenas de marcas de cachaça produzidas no município as mais tradicionais são: Asa Branca, Beija-Flor, Boazinha, Canarinha, Cubana, Erva Doce, Indaiazinha, Lua Cheia, Piragibana, Preciosa, Sabor de Minas, Salineira, Seleta, Terra de Ouro, e a emblemática e lendária Anísio Santiago – Havana, marca símbolo da região e reconhecida Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas por meio do Decreto Municipal nº. 3.728/2006, fato inédito no país no segmento de bebidas. Também é de Salinas o maior produtor mineiro de cachaça artesanal em volume de produção que é comercializada sob as marcas Boazinha e Seleta do empresário Antônio Eustáquio Rodrigues, um dos expoentes empresários de Salinas da atualidade.

A cachaça de Salinas, atualmente, é a segunda atividade econômica do município com participação de 33%, em média. Em 2006, foi responsável por 46,4% da arrecadação de ICMS sobre a produção da bebida em todo o território mineiro, demonstrando a força da atividade econômica. Definitivamente, a cadeia produtiva no município encontra-se consolidada. O Governo de Minas, em novembro de 2007, reconhecendo a importância de Salinas no processo de produção de cachaça artesanal de qualidade, em parceria com a Prefeitura local, resolveu criar o Museu da Cachaça de Salinas. O museu vem ratificar a projeção do município no cenário da produção de cachaça.

Outra importante atividade econômica é o comércio que participa com 50%, em média, na economia do município. São centenas de pontos comerciais que demonstram todo o empreendedorismo do salinense que está sempre em busca do progresso e desenvolvimento pessoal e da economia do seu município. Atualmente, Salinas figura entre as dez maiores economias do Norte de Minas, levando-se em consideração a sua contribuição na arrecadação de ICMS em toda a mesorregião norte-mineira. O ICMS, imposto de competência estadual, é um excelente indicador sobre o perfil econômico de municípios e regiões.

No plano educacional, estão sendo instalados vários cursos de nível superior na cidade propiciando evolução cultural e educacional da população localo. Recentemente, o Governo Federal autorizou a implantação do inédito curso superior em produção de cachaça na Escola Agrotécnica Federal de Salinas.

No plano literário, Salinas gerou poetas e escritores expressivos como Abdênago Lisboa, Juventino Nunes, Darcy Freire, Milton Santiago, José Antônio Prates, Rafael Daconti, Aníbal Freire, Iara Tribuzi, Narciso Durães, Maria Helena Costa, Lena Guimarães, Carlita Guimarães, Argeu Guimarães, João Costa, Aníbal Freite, Danilo Borges, Maria Elza Sarmento (Sula), Nádia Maria Cardoso Sarmento, Tiana Rodrigues, Valdiney Barbosa, dentre outros.

A identidade de um povo está intimamente relacionada com sua história, seus costumes e sua cultura. Historicamente, o povo de Salinas forjou um modo de ser e viver. Nos tempos atuais de globalização soube se firmar no mercado brasileiro produzindo bebida que faz parte da história e cultura brasileira: a cachaça.